Artigo - A Terceira Natureza da Amazônia
Artigo - A Terceira Natureza da Amazônia
Por Alfredo Homma
Muitos conhecimentos ainda utilizados na agricultura amazônica decorrem da herança indígena: o cultivo e o beneficiamento da mandioca, as fruteiras nativas, as plantas aromáticas, medicinais, corantes, oleaginosas e tóxicas, as técnicas de caça e pesca, a habitação, etc. A designação indígena das plantas, peixes, animais, utensílios, edifícios, palácios, cidades, praças e aviões reforçam a influência dessa contribuição. Ao mesmo tempo, na Amazônia, foram construídas a terceira e a quinta maior hidrelétrica do mundo, pontes pênseis cruzam os rios Negro e Guamá, cabos de energia da altura da Torre Eiffel cruzam o Rio Amazonas e ferrovias transportam minério de ferro a longa distância, demonstrando que não existem barreiras para grandes obras de engenharia.
O desafio atual está relacionado com as tecnologias agrícolas e ambientais que precisam ser desenvolvidas nos próprios locais de modo a integrar o conhecimento local com a capacidade tecnológica de nosso país. A falta dessa integração reflete-se na redução dos recursos naturais, na importação de alimentos e na geração de emprego e renda. É mais barato consumir uma maçã do que uma fruta regional. O frango atravessa mais da metade do País e é vendido nas cidades amazônicas mais barato do que o pescado e a carne bovina. O potencial da Bacia Amazônica, por exemplo, pode ser aproveitado para a criação de peixes, imitando o sucesso da avicultura e da pecuária, de cujos produtos somos os maiores exportadores. As limitações tecnológicas da região são por demais conhecidas. Os cientistas estão motivados para promover essa mudança e ela é possível. A Embrapa, por exemplo, foi protagonista em revoluções tecnológicas como a produção de agroenergia e viabilização da agricultura nos cerrados. Ao mesmo tempo, a engenharia nacional domina a exploração de petróleo em alto mar e a fabricação de aviões regionais. Temos também capacidade de promover uma revolução tecnológica na Amazônia, desenvolvendo uma agricultura tropical, com a sua flora e fauna.
As alternativas passam por utilizar apenas as áreas ocupadas, que, na Amazônia, correspondem a três vezes a superfície de São Paulo ou mais do que a soma do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, ou, ainda, duas vezes a superfície do Japão ou da Alemanha. A despeito dessa extensão, a participação da região no nosso PIB é relativamente pequena e não tem o impacto que deveria para o desenvolvimento local.
Plantas como a seringueira, cacaueiro, guaranazeiro e pupunheira fazem riqueza nos locais para onde foram levados. O País importa 75% da borracha e 20% do cacau consumido. A Bahia produz 73% do guaraná. São Paulo e Bahia concentram 51% da área de pupunheiras, entre outros. Não é o caso de alegar inviabilidade da agricultura na Amazônia, mas aprimorar nossa criatividade, insumo básico da ciência, na geração de um modelo fabril de produção científica para a região.
A área desmatada constitui a Segunda Natureza e a floresta intocada a Primeira Natureza. Nosso desafio é transformar pelo menos parte da Segunda Natureza em uma Terceira Natureza com atividades produtivas sustentáveis que gerem renda e emprego.
Uma Amazônia mais sustentável é possível.
Alfredo Homma é pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental,
assessor científico da Revista Brasileira de Economia e Sociologia Rural
e membro da Sociedade Brasileira de Economia Ecológica.
Campos de atuação
Socioeconomia
Embrapa Amazônia Oriental
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