Webinar de sensibilização do SoilsPlay aborda recuperação e conservação do solo
Webinar de sensibilização do SoilsPlay aborda recuperação e conservação do solo
A etapa de sensibilização do projeto SoilsPlay – o agro entrou no jogo chegou, na terça-feira (15/6), ao sétimo webinar do desafio abordando o tema “Recuperação e conservação do solo”. Os especialistas convidados foram Isabella Clerici De Maria, pesquisadora do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), e Pedro Luiz de Freitas, pesquisador da Embrapa Solos.
O SoilsPlay é um desafio de inovação organizado por Embrapa Solos, Firjan SENAI e Sistema CNA/Senar, com apoio da Associação Brasileira das Empresas Desenvolvedoras de Jogos Digitais (Abragames) e da Escola Zion, que agrega o agronegócio e a indústria de jogos digitais, duas das maiores cadeias de valor do mundo dos negócios.
Os jogos a serem desenvolvidos pelas equipes participantes, além de divertidos e atraentes para os usuários, deverão ser fundamentados em desafios que contribuam para a comunicação sobre a existência e a necessidade de disseminação e adoção de práticas e tecnologias de uso e manejo do solo para uma agricultura sustentável; ampliem o conhecimento técnico sobre os solos e elevem a conscientização sobre o papel da sociedade e dos cidadãos na contribuição para a sustentabilidade da vida no planeta.
Recuperação e conservação do solo
Dados fornecidos pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e para a Agricultura (FAO) indicam uma perda de cinco milhões de hectares de terras aráveis por ano, ocasionada pelo mau uso do solo pela agricultura, pelas secas, pela pressão populacional e por outras ações de destruição dos recursos naturais provocadas pelo homem. O surgimento dessas novas áreas degradadas, cujos solos tornam-se improdutivos, é um tema que preocupa o mundo todo, já que inviabiliza o desenvolvimento socioeconômico.
A recuperação de áreas degradadas tem envolvido e mobilizado um grande número de técnicos das mais diversas áreas, englobando um conjunto de ações multidisciplinares que buscam proporcionar o restabelecimento das condições de equilíbrio e sustentabilidade dos sistemas naturais.
Para que as ações de conservação e manejo sustentável do solo e de recuperação de áreas degradadas sejam efetivas, é preciso conhecer muito bem esse recurso natural. O pesquisador Pedro Freitas ressaltou que é uma questão complexa, pois envolve solo, água, biodiversidade. “Esse complexo nós chamamos de agricultura. Nós podemos comparar a agricultura a uma grande planta, uma majestosa árvore. Queremos ver as flores, colher os frutos dessa planta. Ela produz alimento, fibras, matéria-prima, nos dá as condições de vida. E, como toda grande árvore, a agricultura precisa das raízes, e elas estão fincadas no solo. E por mais que a gente avance e modernize essa agricultura, com o agro 4.0, agricultura de precisão e digital, drones, satélites, insumos biológicos, essa majestosa árvore continua dependendo das suas raízes fincadas no solo. Por isso, para garantir que a agricultura avance, precisamos conhecer bem o solo e, como consequência, a água contida nele.”
Freitas explicou que é preciso considerar o solo como um recurso natural finito, o que tornam ainda mais necessárias as ações para diminuir a perda por erosão, a perda de matéria orgânica e evitar contaminação, compactação, desertificação e aerização. “Infelizmente, o solo é um recurso natural finito. Ele é, sim, renovável, mas o tempo de renovação do solo é muito longo, são milhões de anos para formar uma pequena camada de 10 centímetros de solo. E esse solo, se eu não protegê-lo, não cobri-lo, uma tempestade dessas que acontecem normalmente em novembro e dezembro pode levar muitos centímetros embora. Aí a nossa árvore perde o seu suporte principal.”
A pesquisadora Isabella De Maria enumerou algumas consequências graves decorrentes do uso incorreto do solo. “O manejo inadequado vai levar à degradação do solo, e ele vai perder a capacidade produtiva. Teremos, então, a geração de processos erosivos intensos. A partir daí, o maior problema decorrente disso, do ponto de vista ambiental, é a alteração dos ciclos hidrológicos, como alteração do regime hídrico das nascentes, fazendo com que algumas sequem, pois a água não está infiltrando no solo corretamente; rios com regime hídrico irregular; assoreamento de reservatórios e cursos d’água; poluição da água. E quando ocorre um processo erosivo, a água vai escoar e levar sedimentos e matéria orgânica aos cursos d’água, sendo que essa última pode ocasionar a eutrofização, que acontece quando os nutrientes em excesso provoca o crescimento de algas, que podem tirar o oxigênio da água e afetar outros seres vivos.”
As primeiras práticas de conservação de solo foram desenvolvidas nos Estados Unidos, durante a década de 1930, e muitas delas foram trazidas posteriormente para o Brasil, tais como terraços, canais escoadouros, bacias de contenção, plantio em nível e plantio em faixas. Porém, muitos problemas surgiram após a implementação dessas práticas no País, devido à incidência de chuvas bem mais intensas do que aquelas registradas no hemisfério norte. “Aí percebemos que alguma coisa estava errada, após muita perda de solo e terraços estourados. Foi quando se começou a questionar a necessidade de preparar o solo tão intensamente aqui no Brasil, como no hemisfério norte. Então começou-se a trabalhar o solo sem preparo, com o plantio direto na palha. Nesse sistema, eu faço o plantio, abro o sulco, coloco a semente e o adubo, dou as condições mínimas para que essa semente possa germinar, e o solo estará coberto, com a palha servindo como um guarda-chuva”, explicou Freitas.
Com o avanço do conhecimento sobre os solos tropicais, a partir dos anos 1950, a pesquisa brasileira seguiu aperfeiçoando o Sistema Plantio Direto, com a descoberta de espécies de cobertura mais adequadas para cada solo e situação, a manutenção do solo coberto durante o ano todo e, principalmente, com as técnicas de rotação de culturas, o que permitiu melhorar a eficácia das práticas de conservação dos solos e aumentar a produtividade. “Como o solo é vivo, quando eu faço a rotação de culturas [como soja, milho, feijão] tenho raízes diferentes explorando os solos. Algumas vão tirar nutrientes de um determinado local, outras vão melhorar a dinâmica de infiltração de água. Há também a melhora da atividade biológica do solo, com fungos, bactérias, alguns pequenos animais, como a minhoca. E essa biodiversidade irá trabalhar ao nosso favor. Mantendo o solo vivo, teremos dele todas as funções: filtro para a água, suporte e fonte de nutrientes para as plantas, alimento para os pequenos animais e pequenos microrganismos”, complementou Freitas.
O pesquisador lembrou que todas as novas formas de medir sustentabilidade estão ligadas ao solo, inclusive os serviços ecossistêmicos, aqueles decorrentes da interação das plantas, animais e microrganismos com o ambiente físico e que apresentam funções biológicas que beneficiam o ser humano. “Um agricultor que começou lá atrás estudando seu solo, buscando assistência técnica especializada, seguindo as indicações do que fazer, usando a tecnologia de maneira adequada, no final do processo ele tem que ser premiado com certificação ambiental, com pagamento de serviços ecossistêmicos, ou mesmo o seu produto pode ser carimbado como ‘amigo da natureza’, porque foi feito com preservação ambiental. É o que esperamos dos processos nesse sentido, que no final o produtor seja premiado com estrelinhas quando ele fizer a coisa bem feita.”
Jogos ajudando a promover as práticas de manejo sustentável
A pesquisadora Isabella De Maria lembrou que, nos anos 1990, houve vários programas estaduais de bacias hidrográficas, alguns financiados pelo Banco Mundial, voltados para conservação dos solos, recuperação de estradas, plantio de mata ciliar etc. Em São Paulo, o cartunista Mauricio de Sousa foi procurado para desenvolver alguns jogos e histórias com a Turma da Mônica para transmitir, de forma lúdica, especialmente às crianças, os conceitos de conservação do solo. Um exemplo foi um jogo de quebra-cabeça com as boas práticas de conservação, como vegetação no topo de morro, plantio de mata ciliar, rotação de culturas, e outro com os impactos negativos do mau uso dos solos, como erosão nas áreas declivosas e rios assoreados.
“Os jogos têm sido um instrumento para educação, transmissão de conteúdo e aprendizado social, que têm ajudado em processos de fixação do conhecimento, de divulgação de técnicas. Hoje, quando falamos do SoilsPlay, estamos buscando uma inovação das ferramentas nesse processo de aprendizado, através dos jogos, dos desafios. São linguagens importantes para atrairmos a atenção das pessoas para o conhecimento de solos. A sociedade já avançou bastante na questão ambiental, temos a consciência da importância de preservar as florestas, a fauna e a flora. Isso já está incorporado em grande parte da sociedade. Mas ainda não temos essa mesma visão em relação aos solos”, disse a pesquisadora do IAC.
Isabella ressaltou que, mais recentemente, está sendo resgatada essa importância do solo, especialmente com a criação do Programa Nacional de Levantamento e Interpretação de Solos no Brasil (PronaSolos), mas é preciso reforçar esses conceitos junto à sociedade. “Nós temos uma legislação ambiental bastante focada na preservação da vegetação, a lei de crimes ambientais voltados à fauna, mas não temos algo voltado para o solo, apesar da importância central que o solo tem no funcionamento da vida na terra. É o solo, por exemplo, que recebe, filtra e leva a água para o lençol freático, é o solo que sustenta as plantas. A sociedade ainda não reconhece essa importância. As ferramentas tecnológicas lúdicas podem ajudar a passar essas informações e incorporar esses conceitos, tanto do solo quanto do seu manejo adequado, das práticas conservacionistas.”
Você sabe quais são os 5 temas do desafio SoilsPlay?
As startups e empresas que irão participar da chamada pública do SoilsPlay, que será publicada após esta etapa de sensibilização, serão desafiadas a apresentar propostas de games que contemplem aspectos técnicos, capacitação e possíveis simulações de cenários para os cinco temas definidos – mercado de carbono, sistemas integrados de produção, serviços ecossistêmicos, recuperação e conservação de solos e experiência do consumidor.
>> Baixe documento com descrição completa dos cinco desafios
O primeiro webinar de sensibilização foi realizado no dia 26/3 e ajudou a entender melhor o tema mercado de carbono, com os convidados Daniel Pérez, pesquisador da Embrapa Solos, e Paulo Costa, assessor do diretor do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET).
O segundo encontro explorou o mundo do desenvolvimento de games, com Priscilla Vasconcelos, pesquisadora do Instituto SENAI de Inovação, e Igor Arnaldo de Alencar, game designer, professor e consultor na área.
Serviços ecossistêmicos foi o tema abordado no terceiro webinar, que aconteceu no dia 22/4. Participaram as especialistas Rachel Bardy Prado, pesquisadora da Embrapa Solos, e Natalia Lutti, pesquisadora do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV.
O quarto webinar abordou, no dia 11 de maio, aspectos do processo de produção para o desenvolvimento de um game. Os especialistas convidados foram Rogério Félix, diretor acadêmico do Núcleo Game da Zion Escola de Entretenimento, e Rodrigo Silva, character artist no Game Generation e instrutor de games e ilustração na Zion.
Já o quinto webinar falou sobre a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), com os convidados Renato Rodrigues, pesquisador da Embrapa Solos, e o gestor em agronegócio, Marcus Ubiratan Vieira, no dia 18 de maio
Enfim, o sexto encontro virtual abordou a experiência do consumidor com Ana Paula Turetta, pesquisadora da Embrapa Solos, e Genésio Vasconcelos, supervisor de prospecção de tecnologias na Embrapa Agroindústria Tropical.
Arte
Durante a live do sétimo webinar, moderada por Fabricio De Martino, a artista Milena Pagliacci ilustrou o mapa mental do encontro em tempo real. Confira o resultado:
Fernando Gregio (MTb 42.280/SP)
Embrapa Solos
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