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As pimentas Capsicum já eram usadas na dieta dos povos americanos pré-colombianos em muitas receitas, geralmente fazendo parte de molhos ou como condimento. 

As pimentas picantes têm grande importância no continente americano e nas regiões tropicais de todo o mundo. Atualmente é absolutamente básica para as cozinhas africana e asiática, sendo usada nos “chutneys” e “curry” indianos, na farinha do cuscuz árabe, no azeite vermelho “tsiao yeou” chinês, no “kimchi” coreano e em muitos outros produtos. 

Os diferentes tipos de pimenta Capsicum têm várias formas de preparo e modos de consumo, sendo uma das hortaliças mais versáteis para a indústria de alimentos. As pimentas doces e picantes podem ser processadas na forma de pó, flocos, picles, escabeches, molhos líquidos, geléias e outros produtos. Podem também ser conservadas em óleo, azeite vinagre ou álcool, seja com frutos inteiros ou fatiados. Os frutos dos tipos doces, não picantes, também são consumidos verdes (imaturos) como hortaliça, em substituição ao pimentão no preparo de diversos pratos. No Brasil, as pimentas mais picantes são componentes insubstituíveis em vários pratos típicos, como o acarajé e o vatapá na Bahia, o frango com quiabo em Minas Gerais, o pato-no-tucupi no Pará e peixadas e caldeiradas em várias cidades litorâneas do Nordeste e Sudeste, entre outros. 

As pimentas picantes são utilizadas pela indústria farmacêutica na composição de pomadas para artrose e artrite. A indústria de cosméticos emprega-as na composição de xampus antiquedas de cabelo e anticaspas. São também utilizadas pela medicina veterinária, como
estimulante sexual em galinhas e como corante na ração de aves (para obter ovos com gemas coloridas no Japão) e para colorir penas de flamingos em zoológicos coreanos. A capsaicina, substância responsável pela pungência dos frutos, pode ainda ser utilizada na obtenção do gás-de-pimenta, usado como arma em “spray”. 

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São muitas as formas de processamento industrial e artesanal que têm as pimentas picantes como matériaprima. Existe uma grande diversidade de tipos varietais de pimentas no Brasil, alguns com múltiplos usos e outros de uso mais específico. Frutos inteiros de pimenta malagueta, de-bode-amarela, de-bode-vermelha, de-cheiro, cumarivermelha e cumari-do-Pará são usados principalmente em conservas. As pimentas do tipo jalapeño e dedo-demoça, de frutos maiores, com paredes de polpa mais espessas e de coloração vermelha intensa, são usadas na fabricação de molhos líquidos. Frutos verdes de pimenta jalapeño também são empregados no preparo de conservas
de frutos fatiados, molhos líquidos e em escabeches. Frutos maduros de pimenta dedo-de-moça também podem ser fatiados e usados na fabricação de conservas. 

As indústrias processadoras de pimentas devem seguir as recomendações das secretarias estaduais de saúde e de vigilância sanitária para a
adoção de padrões químicos, físicos e microbiológicos de controle de qualidade. Devem atentar principalmente para a qualidade das matérias-primas e para a adoção de cuidados de higiene durante os processos de produção de conservas, molhos e outros produtos à base de pimenta. Recomenda-se a todos os produtores familiares, pequenos empresários e associações de produtores que não contam com profissionais capacitados que busquem apoio técnico junto ao Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), aos serviços estaduais e municipais de extensão rural, às universidades e às instituições de pesquisa públicas, para o aprimoramento das técnicas de produção, processamento e comercialização. 

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As conservas podem ser feitas à base de ácido acético, ácido cítrico, álcool de cereais, aguardente e óleo ou azeite de oliva. As conservas feitas em azeite ou óleo normalmente ficam mais picantes do que as feitas em vinagre, em função de a capsaicina ser uma substância lipossolúvel, ou seja, solúvel em gordura. 

No preparo de conservas pode ser usado um só tipo de pimenta ou uma mistura de diferentes frutos, de coloração variada, dispostos em camadas (Figura 1). Quando são usados frutos de várias cores, a conserva fica mais atrativa. Esse tipo de conserva é conhecido como “blend” de pimentas, que, envasado em vidros decorativos, é usado na ornamentação de cozinhas residenciais, bares, lanchonetes e restaurantes. 


Figura 1. Conservas de pimentas como a biquinho e a dedo-de-moça são muito populares.

 

Preparo de conservas

Os frutos de pimentas usados em conservas devem ser resistentes a rachaduras e livres de manchas, lesões e podridões, além de serem adaptados ao envasamento, ou seja, de tamanho pequeno, coloração intensa e estável. Devem possuir excelentes qualidades organolépticas,  como sabor, aroma e pungência. Frutos grandes têm maior espaço interno, preenchido com ar, o que os faz boiar nas conservas. Em curto espaço de tempo esses frutos absorvem a solução da conserva e, ao entrar em contato com o ar, acabam escurecendo (oxidando),  comprometendo a qualidade do produto. Frutos de pimenta graúdos devem ser fatiados quando destinados à produção de conservas ou picles. As conservas mais comuns de pimentas usam salmoura ou solução de vinagre (ácido acético) e sal. Algumas receitas incluem temperos como orégano, endro, alecrim e alho. 

O processo de produção de conserva em solução ou calda de vinagre e sal é similar ao de outros vegetais, como pepino, couve-flor e cenoura. A eficiência da calda quanto à conservação dos frutos está diretamente relacionada à difusão do ácido dentro do fruto de 
pimenta e ao tempo necessário para que a conserva atinja pH equilibrado de 4,6 ou mais baixo, processo que pode levar até seis dias.

A maioria das conservas comerciais é produzida em duas etapas. Na primeira, frutos frescos, limpos e sem os pedúnculos (os ‘cabinhos’ dos frutos de pimenta) são colocados em salmoura para conservá-los e mantê-los firmes. A primeira salmoura tem concentrações de sal e ácido acético mais altas, para evitar que os frutos amoleçam, percam a cor e sejam contaminados por microorganismos. 

A Emater-MG recomenda a seguinte composição para a salmoura: 100 L de água, 12,5 kg de sal, 2 kg de açúcar e 6 L de vinagre. Frutos de pimenta podem ser armazenados nessa salmoura inicial por até nove meses antes da embalagem final, embora a maioria seja mantida por dois a três meses.

Na segunda etapa, depois de um período mínimo de duas a oito semanas (dependendo da variedade ou tipo de pimenta e do processo), os frutos são retirados da salmoura, lavados, novamente classificados e, então, colocados em uma segunda salmoura, que corresponde à calda de vinagre e sal. Somente os frutos de melhor qualidade devem ser selecionados. As concentrações de sal e vinagre na segunda salmoura são geralmente reduzidas, e nesta etapa podem ser adicionados outros temperos para realçar o sabor da conserva. A composição final varia de acordo com a receita usada pelo processador, mas normalmente é formulada com pH de 4,2 ou com valores de pH pouco mais baixos. A calda então é adicionada aos frutos na embalagem final (frascos de vidro) e esta é fechada, selada e pasteurizada. 

As indústrias processadoras normalmente usam substâncias conservantes na salmoura, para evitar o amolecimento e a descoloração dos 
frutos. O bissulfito de sódio, na concentração de 0,5% a 1,0% por peso, é o conservante mais usado. Apesar de ser um conservante muito efetivo, o bissulfito pode alterar o sabor da conserva e também provocar reações alérgicas em consumidores portadores de asma. Outro conservante usado nas salmouras é o cloreto de cálcio (0,25% a 0,50% por peso), porém é menos efetivo na manutenção da firmeza dos frutos, e, quando usado em altas concentrações, pode conferir sabor amargo à conserva e escurecer os frutos. 

As conservas devem ser armazenadas ou preservadas em vidros esterilizados, identificados com etiquetas contendo informações básicas sobre o produto, como marca comercial, tipo de pimenta, nome e endereço do fabricante, data de fabricação e validade, entre outros.

 

Para a produção de molhos de pimenta de boa qualidade, tanto artesanal quanto em escala industrial, é imprescindível o uso de  matéria-prima de ótima qualidade, que não ofereça riscos à saúde do consumidor, e a pasteurização do produto final. São características importantes na produção de molho de pimenta: pungência, coloração, aroma, teor de sólidos solúveis, brix, acidez e
viscosidade ou textura. 

Figura 2. Molhos de pimenta são produtos muito populares pela facilidade de uso.

O molho artesanal tradicional de pimenta é feito com pimentas picantes, vinagre, sal e água, podendo ser acrescentado açúcar, alho e especiarias. Esses ingredientes são batidos no liqüidificador ou processador e depois passam por uma etapa de cozimento (refogamento). Existem receitas que adicionam outras hortaliças, como tomate e cenoura, e, ainda, cebola, alho e ervas (salsinha, coentro, orégano), para temperar. Em geral, o ácido acético (vinagre) e o sal, além do processamento térmico (cozimento), já são suficientes para a conservação do produto. O ácido acético, além de diminuir o pH do produto, permite 
a obtenção de um molho mais viscoso, quando feito somente à base de pimenta e sal.

Cuidados com a fabricação, como a observação de ‘Boas Práticas de Fabricação (BPF)’ e a esterilização de frascos ou vasilhames, garantirão mais durabilidade ao produto. Os frascos com os molhos devem ser etiquetados com informações básicas sobre o produto,
como marca comercial, tipo de pimenta, nome e endereço do fabricante, data de fabricação e validade, entre outras. Recomenda-se, ainda, o acompanhamento, por um técnico em alimentos, do processo de adição de conservantes no preparo de molhos.

Como qualquer produto alimentício, o molho de pimenta está sujeito ao controle de vigilância sanitária. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) determina quais são os critérios que devem ser adotados para que o produto seja elaborado dentro dos padrões de BPF e, conseqüentemente, tenha maior prazo de validade. Substâncias conservantes e espessantes que podem ser
usadas, com respectivas quantidades, são definidas em legislação específica e devem ser consultadas no website da ANVISA (www.anvisa.gov.br).

A desidratação é um dos métodos mais antigos de processamento de alimentos. Tem como vantagem a conservação das características organolépticas e dos valores energéticos dos produtos. A desidratação ou a remoção da água dos tecidos paralisa reações de deterioração natural dos produtos e inibe o crescimento de microorganismos, resultando em produtos altamente concentrados e de qualidade duradoura. No entanto, a alta concentração de sólidos torna produtos desidratados altamente sensíveis a determinadas alterações químicas, como a redução dos níveis de vitaminas, comparativamente ao produto original fresco.

A dessecação e a desidratação estão entre as principais formas de conservação de frutas e hortaliças, inclusive de pimentas e pimentões. Industrialmente, a desidratação é definida como secagem pelo calor produzido artificialmente sob condições de temperatura, umidade e corrente de ar controlada acuradamente. A dessecação, embora tenha o mesmo significado de desidratação, refere-se a produtos secos ao sol (Figura 3). Quando comparada a outros processos de conservação, a desidratação apresenta algumas vantagens, como a diminuição de gastos com armazenamento e distribuição dos produtos, em função da redução de peso e volume. Mas a grande vantagem do processo de desidratação é a transformação de um produto perecível numa forma estável, com características semelhantes ao produto natural, de alta qualidade e de acordo com as exigências do consumidor. Com a crescente  referência dos consumidores por produtos naturais, os vegetais desidratados (frutos ou hortaliças) têm desempenhado papel  importante no atendimento dessa demanda. 

Figura 3. Estufas de plástico propiciam a desidratação de pimentas de maneira simples e barata.

A concentração de pigmentos naturais na polpa de frutos vermelhos e maduros de pimentão e de pimenta doce confere a essas hortaliças grande e particular importância na indústria de processamento de alimentos. A coloração vermelha dos frutos decorre da presença de carotenóides oxigenados (xantofilas), principalmente capsantina e capsorubina, que correspondem a 65% a 80% da cor total dos frutos maduros. Tais pigmentos têm sido largamente usados como corantes naturais em diversas linhas de produtos processados, como molhos, sopas em pó de preparo instantâneo, embutidos de carne (principalmente salsicha e salame)
e, ainda, em ração de aves, para acentuar a coloração das gemas, e para avivar a plumagem de aves como flamingo. 

A importância industrial do pimentão e de pimentas doces (Capsicum annuum) é conferida pela presença de um concentrado de  pigmentos naturais na polpa de seus frutos vermelhos e maduros. Estes pigmentos pertencem aos grupos dos carotenóides, cujo principal componente é a capsantina, e dos flavonóides. A páprica, pó de pimentão ou de pimenta doce vermelhos (maduros) é utilizada largamente como corante natural em diversas linhas de produtos processados. 

O conteúdo de corantes nos frutos está associado principalmente ao genótipo, mas condições ambientais como clima e manejo cultural podem exercer forte influência na coloração do produto final. A determinação do ponto ideal de colheita também é muito importante, pois o fruto só deve ser colhido ao atingir seu ponto máximo de maturação, quando é maior a concentração de corantes. Na prática, somente os frutos com coloração bem vermelha devem ser colhidos. 

O produto mais conhecido e valorizado internacionalmente feito com base nos corantes de pimentas é a páprica, que pode ser descrito como uma pimenta vermelha, desidratada, seca e processada na forma de um pó fino e de cor vermelha intensa.

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