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05/03/25 |   Biodiversity  Research, Development and Innovation

Fungo da Antártica pode levar a novo biopesticida natural

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Photo: Luiz Henrique Rosa

Luiz Henrique Rosa - A biodiversidade microbiana pouco explorada da Antártica torna o continente promissor para a busca de novos compostos com aplicações biotecnológicas.

A biodiversidade microbiana pouco explorada da Antártica torna o continente promissor para a busca de novos compostos com aplicações biotecnológicas.

  • Cientistas brasileiros e americanos estudaram um fungo isolado do Oceano Austral, na Antártica, coletado a 400 m de profundidade..
  • Substâncias bioativas do micro-organismo Penicillium palitans apresentaram propriedades antifúngicas e fitotóxicas/herbicidas, contra patógenos como o causador da antracnose..
  • Os micro-organismos descobertos podem ser usados para produzir novos bioinsumos mais sustentáveis na agricultura, capazes de substituir ou reduzir insumos químicos..
  • Testes mostraram que um dos compostos inibe a germinação de sementes de plantas daninhas e combate fungos patogênicos..
  • Estudo é parte do Programa Antártico Brasileiro e pode levar a novos avanços biotecnológicos utilizando organismos que vivem em ambientes extremos.

Cientistas brasileiros e americanos descobriram que um fungo isolado de sedimentos marinhos profundos do Oceano Austral, na Antártica, produz substâncias bioativas com potencial para serem utilizados no desenvolvimento de biopesticidas naturais (bioinsumos). A pesquisa, conduzida por instituições como a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Embrapa Meio Ambiente (SP) e o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA - United States Department of Agriculture), identificou substâncias antifúngicas e fitotóxicas que podem se tornar alternativas sustentáveis aos agroquímicos sintéticos.

O fungo estudado, Penicillium palitans, foi coletado a mais de 400 metros de profundidade e submetido a análises laboratoriais que revelaram duas substâncias principais: penienona e palitantina. A penienona demonstrou forte atividade antifúngica e fitotóxica, inibindo completamente a germinação de sementes de grama-bentgrass, mesmo em baixas concentrações. O composto também foi eficaz contra o Colletotrichum fragariae, um fungo patogênico que causa antracnose em diversas culturas agrícolas. Já a palitantina apresentou efeito fitotóxico moderado.

Segundo a pesquisadora Débora Barreto da UFMG, a Antártica abriga uma biodiversidade microbiana pouco explorada, com organismos adaptados a condições extremas (extremófilos), como temperaturas congelantes e alta salinidade. Essas características tornam o continente um local promissor para a busca de novos compostos com aplicações biotecnológicas.

O desafio das expedições polares

A coleta de amostras na Antártica, no entanto, representa um desafio logístico significativo. As expedições exigem um ano de preparação e treinamentos específicos. O deslocamento até o local pode levar cerca de 10 dias, e a coleta dos sedimentos marinhos profundos demanda até 24 horas ininterruptas de trabalho.

O estudo apresenta alternativas aos pesticidas sintéticos, cujo uso excessivo tem levado ao aumento da resistência de pragas e a impactos ambientais negativos. Segundo Luiz Henrique Rosa, professor do Departamento de Microbiologia da UFMG e coordenador da pesquisa, fungos extremófilos como o P. palitans podem se tornar fontes valiosas de novas moléculas para formulações sustentáveis na agricultura.

Impacto ambiental e desafios para aplicação comercial

Segundo a pesquisadora Sonia Queiroz da Embrapa, a descoberta de novas moléculas bioativas de origem natural, além de reduzir a dependência de agroquímicos sintéticos, pode contribuir para o conceito de Saúde Única. No entanto, transformar essas substâncias em produtos comerciais ainda exige testes adicionais para avaliação de segurança, estabilidade e eficácia em condições reais de campo.

Os cientistas destacam que a transformação desses compostos em produtos comerciais exige testes adicionais para avaliar sua segurança, estabilidade e eficiência em campo. “Nosso próximo passo será ampliar os estudos toxicológicos e ecotoxicológicos e explorar a viabilidade da produção em larga escala, com possível colaboração entre instituições de pesquisa e empresas do setor agrícola”, explica Rosa.

Com a crescente demanda por soluções sustentáveis, a bioprospecção de organismos extremófilos pode abrir caminho para novos avanços na biotecnologia aplicada à agricultura global. Os resultados desse estudo abrem novas perspectivas para busca de outros fungos antárticos para potencial uso na agricultura e a identificação de outras substâncias bioativas. Os cientistas ainda ressaltam a importância da conservação desses ecossistemas para o avanço da biotecnologia.

O estudo faz parte do Programa Antártico Brasileiro (Proantar) e conta com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), além de apoio logístico da Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (Secirm) da Marinha do Brasil.

Equipe de pesquisa

A equipe é composta por Débora Luiza Costa Barreto (Universidade Federal de Minas Gerais); Charles Lowell Cantrell (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos); Mayanne Karla da Silva (Universidade Federal de Minas Gerais); Camila Rodrigues de Carvalho (Universidade Federal de Minas Gerais); Sonia Claudia do Nascimento de Queiroz (Embrapa Meio Ambiente); Joanna Bajsa-Hirschel (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos); Prabin Tamang (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos); Stephen Oscar Duque (Universidade do Mississippi); Alysson Wagner Fernandes Duarte (Universidade Federal de Alagoas); Luiz Henrique Rosa (Universidade Federal de Minas Gerais).

Cristina Tordin (MTb 28.499/SP)
Embrapa Meio Ambiente

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